Azul contra vermelho: um ouriço que continua ganhando corações

Azul contra vermelho: um ouriço que continua ganhando corações

Qualquer criança dos anos 90 passou por isso em algum momento. Na escola, no recreio, na casa de um amigo: “você é de Mario ou de Sonic?” Não havia resposta neutra. Era declaração de lealdade — quase como escolher time de futebol. E assim como futebol, a discussão nunca tinha fim.

Mas ao contrário do que acontece entre times rivais, essa história tem um final que ninguém teria previsto nos anos 90: os dois personagens acabaram jogando juntos. Literalmente.

Para entender como chegamos até aqui, é preciso voltar ao começo

O projeto que tinha um nome muito honesto

Em 1990, a Nintendo dominava o mercado de consoles com mais de 90% de participação, e o Mario era praticamente imbatível em popularidade. A Sega precisava de uma resposta — e não estava disposta a ser sutil.

O projeto interno tinha um nome direto: “Derrotar o Mario”. Sem rodeios. Sem eufemismo. Era guerra declarada, e a Sega queria um mascote que fosse tudo que o Mario não era: veloz, atrevido, cheio de atitude. Um personagem que fizesse os adolescentes da época acharem que a Nintendo era coisa de criança pequena.

Ouriço azul

A equipe foi montada com Yuji Naka como programador principal, Naoto Ohshima no design e Hirokazu Yasuhara responsável pelos níveis. Vários conceitos foram testados: um tatu, um sósia de Theodore Roosevelt de pijama — que inspiraria o Dr. Eggman — e um coelho que esticaria as orelhas para capturar objetos.

Pílula Nerd — a escolha pelo ouriço foi bem inusitada. Como não houve consenso dentro da equipe, Ohshima levou os desenhos para Nova York e pediu a opinião de pessoas que passavam pelo Central Park. O ouriço azul foi o personagem que mais agradou.

Os sapatos de Michael Jackson e o Papai Noel

Aqui começa a parte que muita gente não sabe — e que torna a origem do Sonic ainda mais fascinante.

A cor azul foi escolhida para representar o logotipo da Sega. E os sapatos vermelhos? Foram inspirados em dois lugares improváveis: o estilo icônico de Michael Jackson e o design das botas do Papai Noel. Uma combinação que não faz nenhum sentido até você ver o resultado — e perceber que funciona perfeitamente.

Antes de se chamar Sonic, o personagem atendia pelo nome de Mr. Needlemouse e era castanho. Nos primeiros conceitos, teria até uma namorada chamada Madonna e uma banda musical. A versão que chegou às lojas em 1991 era bem mais enxuta — mas o impacto foi enorme.

Em 23 de junho de 1991, Sonic the Hedgehog chegou às lojas. Sucesso comercial instantâneo, em pouco tempo se tornou o principal título do Mega Drive e finalmente a Sega tinha um mascote para competir com o Mario

A guerra que moveu a indústria

O que aconteceu depois do lançamento de Sonic não foi só uma disputa comercial. Foi uma das rivalidades mais criativas e produtivas da história dos games.

A Sega fez a Nintendo de gato e sapato nos comerciais e vídeos promocionais da época. Havia provocações abertas, comparações diretas e uma energia que hoje parece quase impossível de imaginar numa indústria tão corporativa quanto a atual.

Guerra e paixão

A Nintendo respondeu com suas próprias provocações. Em Donkey Kong Country 2, os sapatos de Sonic podem ser avistados ao rodapé de um pedestal de vencedores — próximo a uma lata de lixo. A mensagem não poderia ser mais clara.

A Sega criou o conceito de “Blast Processing” — uma forma de denotar o nível de agilidade e potência de seus games. Porém, de acordo com os próprios porta-vozes da empresa, o tal processador não passava de um blefe de marketing. A tecnologia não existia. Era branding puro. E funcionou.

A estratégia deu certo e, pela primeira vez, a soberania da Nintendo foi quebrada. A Sega chegou a ficar com 65% do mercado de videogames. Quem ganhou mesmo, como alguém disse na época, foram os jogadores — que tinham títulos de qualidade dos dois lados.

Curiosidades que poucos conhecem

Michael Jackson participou da trilha sonora de Sonic the Hedgehog 3. O Rei do Pop, na época um dos artistas mais famosos do planeta, compôs músicas para o jogo — embora seu nome não apareça nos créditos oficiais por razões que nunca foram completamente explicadas pela Sega.

Existe um gene humano chamado Sonic Hedgehog. É o SHH, responsável por regular o desenvolvimento de membros e órgãos em embriões. Descoberto nos anos 90, foi batizado pelos pesquisadores em homenagem ao personagem. O ouriço azul literalmente entrou para a biologia.

Desfile de Macy’s. Muito antes dos filmes, dos crossovers com Mario ou de aparecer em Super Smash Bros, Sonic já fazia parte da cultura pop. Em 1993, participou do tradicional desfile de Ação de Graças da Macy’s, em Nova York.

O fim da guerra e o início de algo inesperado

Em 2001, a Sega se retirou do mercado de consoles. No ano seguinte, Sonic já aparecia no GameCube da Nintendo. O que seria impensável uma década antes virou realidade quase natural.

Ouriço e encanador

Depois que a Sega parou de produzir consoles, a relação com a Nintendo melhorou — e isso afetou diretamente a relação entre Sonic e Mario. Nos jogos olímpicos, a rivalidade virou amizade. Em artes e trailers, os dois aparecem apertando as mãos no topo do Big Ben. No jogo das Olimpíadas de Tóquio 2020, o Story Mode termina com os dois se dando um high-five.

É um final que teria parecido ficção para qualquer criança dos anos 90 que escolheu um lado no recreio.

Trinta e tantos anos depois

Falamos aqui sobre o Mario e como ele ajudou a criar a cultura gamer que conhecemos hoje. O Sonic é a outra metade dessa história — o personagem que forçou a Nintendo a ser melhor, que provou que havia espaço para mais de um ícone, e que sobreviveu ao fim da empresa que o criou.

Os filmes a partir de 2020 trouxeram o ouriço para uma nova geração que nunca segurou um controle de Mega Drive. E funcionou. Sonic continua sendo um dos maiores ícones dos videogames, ao lado do Mario — seu maior rival e, no fim das contas, seu parceiro mais improvável.

Azul contra vermelho. Velocidade contra plataforma. Sega contra Nintendo. Uma rivalidade que durou uma década e produziu alguns dos melhores jogos da história — e que terminou com um aperto de mãos que ainda emociona quem estava lá no começo. 

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