Tudo virou IA — e agora a internet está ficando estranha

Tudo virou IA — e agora a internet está ficando estranha

Tem uma sensação crescente de que algo mudou na internet. Não é nada que você consiga apontar com precisão — é mais uma percepção difusa, quase intuitiva. Textos que parecem certos mas não dizem nada de verdade. Imagens bonitas demais para serem reais. Respostas que chegam rápido demais, completas demais, sem nenhuma imperfeição humana.

A internet está cheia de IA. E esse não seria necessariamente um problema — se não fosse o tipo de IA que está tomando conta.

Do nada a metade de tudo em três anos

Os números são difíceis de ignorar.

Em 2022, cerca de 10% dos artigos recém-publicados na internet mostravam sinais de geração por IA. Em outubro de 2025, esse número havia chegado a 52% — uma divisão de praticamente 50/50 entre conteúdo humano e gerado por máquina, conforme confirmado por um estudo da Graphite e Originality.ai.

IA - textos em escala

Mas a parte mais perturbadora não é o volume. É a natureza do que está sendo produzido.

Mais de 2.089 sites de notícias gerados por IA foram identificados em 16 idiomas, muitos publicando centenas de artigos por dia. O YouTube registra uma estimativa de 63 bilhões de visualizações anuais de conteúdo gerado por IA. Existe até um nome para isso — AI Slop, eleito palavra do ano pelo Merriam-Webster: conteúdo que soa fluente mas não diz nada. A lógica por trás é simples e perturbadora: quando custa quase nada produzir algo que parece profissional e as plataformas recompensam volume em vez de substância, o resultado é inevitável.

Não é uma crise de tecnologia. É uma crise de incentivos.

O problema não é a IA — é o que fazemos com ela

Aqui vale uma distinção importante, porque é fácil cair na armadilha de demonizar a ferramenta.

A IA em si não é o problema. Temos um artigo aqui no blog sobre ChatGPT vs Gemini que mostra exatamente como essas ferramentas, quando usadas com intenção, podem ser genuinamente úteis. E também falamos sobre como automatizar tarefas sem saber programar — porque IA aplicada a problemas reais, com um humano no controle, funciona muito bem.

O problema começa quando a IA é usada não para amplificar a inteligência humana, mas para substituí-la em escala — produzindo conteúdo em quantidade industrial, sem revisão, sem perspectiva, sem a marca de ninguém.

Pesquisadores da USP têm debatido exatamente esse ponto: a IA, da forma como está sendo amplamente adotada, não liberta — substitui. A distinção é fundamental: uma ferramenta que amplia capacidades humanas é diferente de uma que simplesmente ocupa o espaço onde haveria um ser humano pensando.

O jornalismo sentiu primeiro — e está reagindo

Poucos setores perceberam o problema tão cedo quanto o jornalismo. E as respostas têm sido reveladoras.

O The Guardian, um dos jornais mais respeitados do mundo, passou boa parte de 2026 desenvolvendo e divulgando publicamente suas diretrizes internas sobre o uso de IA. A posição deles é clara: IA pode ser usada para tarefas de suporte — transcrição, pesquisa, organização — mas o julgamento editorial, a apuração e a escrita final são humanos. Sempre.

Nas redações brasileiras, segundo o LatAm Journalism Review, a discussão evoluiu de “usar ou não usar IA” para “como usar de forma responsável”. Veículos como Agência Brasil, O Globo e Folha de S. Paulo já adotaram ferramentas de IA em partes do processo — mas com supervisão humana clara e protocolos definidos para evitar que a velocidade sacrifique a qualidade.

Isso é diferente do que acontece na maior parte da internet, onde não existe editor, não existe protocolo e não existe ninguém verificando se o que foi publicado faz sentido de verdade.

Quando o volume mata o valor

Existe um efeito colateral do AI Slop que vai além da qualidade individual de cada peça de conteúdo: ele degrada a confiança em tudo.

Quando metade do que você lê pode ter sido gerado por uma máquina sem nenhuma intenção real por trás, o instinto natural é desconfiar de tudo. Textos bem escritos passam a parecer suspeitos. Imagens bonitas viram alvo de escrutínio. A autenticidade — que antes era assumida — vira uma conquista que precisa ser provada.

O efeito filtro é real: o Google já consegue remover boa parte do AI Slop dos resultados de busca. O problema não está mais nas pesquisas — está nos feeds de redes sociais, nas recomendações do YouTube, nas listagens da Amazon e em qualquer lugar onde a curadoria algorítmica substitui o julgamento editorial.

Em outras palavras: a internet que você encontra quando pesquisa algo está razoavelmente protegida. A internet que você consome passivamente — rolando o feed, assistindo o que é recomendado — está cada vez mais tomada por conteúdo que existe apenas para existir.

O SXSW 2026 e a virada de consciência

Um dos sinais mais interessantes de que algo está mudando veio de um lugar improvável: o próprio festival que por anos celebrou a inovação tecnológica sem questionar.

No SXSW 2026, em Austin, a IA continuou sendo tema central — mas com uma diferença notável. Pela primeira vez em anos, o festival começou a questionar abertamente sua própria obsessão pela tecnologia. Painéis sobre os limites da IA, sobre o que se perde quando tudo é automatizado, sobre criatividade genuína versus geração procedural ganharam espaço e audiência que antes eram reservados para anúncios de produto.

Não é uma rejeição. É uma maturidade. A indústria que criou o problema começa a reconhecer que tem um problema.

IAs vs Ideia real

O que isso tem a ver com quem ama tech?

Tudo, na verdade.

Quem gosta de tecnologia de verdade — não como consumo passivo, mas como curiosidade genuína — sente essa mudança de forma mais aguda. Porque a promessa da tecnologia sempre foi ampliar o que os humanos conseguem fazer, não substituir o que os humanos são.

Existe uma diferença enorme entre usar IA para fazer em dois minutos o que levaria duas horas — e usar IA para produzir em dois minutos algo que não deveria existir. A primeira é progresso. A segunda é ruído.

O tech entusiasta que navega bem nesse cenário é o que aprende a distinguir as duas coisas: usa a ferramenta com intenção, mantém o julgamento humano no centro e não confunde velocidade com valor.

Então, o que fazer?

A resposta não é largar a IA — seria ingênuo e impraticável. A resposta é ser mais exigente com o que você consome e mais consciente com o que você produz ou compartilha.

Pergunte-se: esse texto foi pensado por alguém, ou apenas gerado? Essa imagem foi criada com intenção, ou só existe para preencher espaço? Esse conteúdo me ensina algo, ou só parece que sim?

A internet sempre foi imperfeita. Mas havia uma época em que a imperfeição era humana — e isso, paradoxalmente, tornava tudo um pouco mais real. O desafio agora é preservar essa humanidade num ambiente onde imitá-la ficou muito fácil e muito barato.

Porque quando tudo parece especial, nada mais é.

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Fontes e leituras recomendadas

Jornal da USP – IA não liberta, substitui

LatAm Journalism Review – Nas redações brasileiras, não se trata de usar IA ou não, mas de como usá-la

Nova Brasil – SXSW 2026: o dia em que o festival começou a questionar a própria obsessão por IA

The Guardian – How the Guardian is using GenAI

The Guardian – The Guardian launches year-long reporting initiative exploring AI, work and power

SlopDetector – The Rise of AI Slop

 

InfoPtah

2 comentários sobre “Tudo virou IA — e agora a internet está ficando estranha

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